CONSIDERAÇÕES
SOBRE AS NORMAS BRASILEIRAS DE ESTRUTURAS
EM SITUAÇÃO DE INCÊNDIO
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Valdir Pignatta e Silva
Professor doutor da Escola Politécnica da
Universidade de São Paulo
INTRODUÇÃO
Em 1994, o Corpo de Bombeiros de São
Paulo alegando que não havia Norma Brasileira com recomendações para o
dimensionamento das estruturas de aço em situação de incêndio, publicou uma Instrução
Técnica outorgando diretrizes para o projeto de estruturas metálicas. Essa
Instrução Técnica não incluiu recomendações para edificações em concreto, por
haver, à época, uma norma de estruturas de concreto em situação de incêndio
(NBR 5627:1980). A atitude do CB/SP foi adequada, porém as exigências de
segurança foram consideradas excessivas e inflexíveis. A IT, no entanto,
incentivou o interesse pelo tema dos meios técnico, acadêmico e industrial.
Em 1996, a Associação Brasileira de
Normas Técnicas instalou a Comissão de Estudos CE-24:301-06 "Proteção
contra fogo das estruturas metálicas", depois renomeada para
"Segurança das estruturas em situação de incêndio". Nessa comissão,
foi criado um Grupo de Trabalho (GT), constituído por representantes do meio
universitário (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Universidade
Federal de Minas Gerais e Universidade Federal de Ouro Preto) e do meio técnico
(Codemi e Tecsteel) para elaborar textos-base normativos sobre o assunto.
A CE composta, entre outros, de
representantes do Corpo de Bombeiros/SP, de fabricantes de material de
revestimento contra fogo, do Instituto de Pesquisas Tecnológica, de escritórios
de projetos, de siderúrgicas, em 1999, após consulta pública, aprovou a NBR
14323:1999 "Dimensionamento de estruturas de aço de edifícios em situação
de incêndio".
Para a utilização da NBR 14323:1999, foi
necessária a elaboração de outra norma, que fornecesse as diretrizes para a
determinação da ação térmica nos elementos construtivos das edificações. O GT,
contando com a valiosa contribuição de diversos oficiais do Corpo de
Bombeiros/SP, elaborou um texto-base, que foi aprovado pela Comissão de
Estudos, após consulta pública, em 2000, dando origem à NBR 14432:2000
"Exigências de resistência ao fogo de elementos construtivos das
edificações". Essa norma é válida para quaisquer estruturas,
independente do material (concreto, aço, alvenaria estrutural, madeira, etc.)
utilizado.
A NBR 5627:1980 “Exigências particulares
das obras de concreto armado e protendido em relação à resistência ao fogo” foi
cancelada em 2001 e substituída pelo Anexo B do texto de revisão da NBR 6118,
versão de 2001. Esse anexo foi suprimido na versão final da NBR 6118:2003, mas
tornou-se o texto-base para a NBR 15200:2004 “Projeto de estruturas de concreto
em situação de incêndio”.
Atualmente, a IT do Corpo de Bombeiros de
São Paulo, revisada, é compatível com as Normas Brasileiras.
EXIGÊNCIAS DE
RESISTÊNCIA AO FOGO DE ELEMENTOS
CONSTRUTIVOS DAS
EDIFICAÇÕES.
NBR 14432:2000
Objetivo
A Norma Brasileira NBR 14432:2000
"Exigências de resistência ao fogo de elementos construtivos de
edificações" tem por objetivo estabelecer as condições a serem atendidas
pelos elementos construtivos, estruturais ou de compartimentação, que integram
os edifícios. O objetivo é, em situação de incêndio, evitar o colapso
estrutural e atender requisitos de estanqueidade e isolamento de forma a
possibilitar: a fuga dos ocupantes da edificação em condições de segurança, a
segurança das operações de combate ao incêndio e a minimização de danos a
edificações adjacentes e à infra-estrutura pública.
TRRF
O efeito do incêndio é a ação térmica nas estruturas e sua conseqüente elevação de temperatura. Difere das ações da gravidade e eólica, por se tratar de uma ação excepcional, devido ao baixo período de recorrência.
Para a análise das estruturas, o incêndio é caracterizado pela relação entre a temperatura dos gases quentes e o tempo. A severidade do incêndio depende da geometria e do uso do edifício, por conseguinte, varia para cada edificação.
Há modelos matemáticos do
incêndio real denominados “curvas naturais” de incêndio. Essas curvas são
parametrizadas pela carga de incêndio, pelo grau de ventilação e pelas
características dos elementos de compartimentação (Fig. 1). Por simplicidade, a
curva real é normalmente substituída por curvas padronizadas para ensaios. A
mais difundida internacionalmente é a recomendada pela ISO 834 (Fig. 2),
empregada para combustão de materiais celulósicos. Quaisquer conclusões com
base nessa curva devem ser analisadas com cuidado, pois o incêndio-padrão não
corresponde ao incêndio real. A NBR
5628:2001 baseia-se nessa curva-padrão.
|
Figura 1: Curva temperatura-tempo do incêndio conforme o modelo do incêndio natural |
Figura 2: Curva padronizada de elevação de temperatura (modelo do incêndio-padrão) |
A partir da curva temperatura-tempo dos gases quentes, é possível determinar a temperatura no elemento da estrutura por meio de expressões, que admitem uma distribuição uniforme de temperaturas, válidas, portanto, para elementos esbeltos isolados. Os modelos de incêndio natural permitem determinar a temperatura máxima do elemento (Figs. 3 e 4), para a qual ele deve ser dimensionado. Isso não é conseguido ao se empregar o incêndio-padrão. Por, na prática, empregar-se a curva-padrão, há necessidade de arbitrar um “tempo” para determinar uma temperatura de dimensionamento.
|
Figura 3: Temperatura no elemento estrutural para o modelo de incêndio natural. |
Figura 4: Temperatura no elemento estrutural para o modelo de incêndio-padrão. |
Esse “tempo” é chamado de tempo requerido de resistência ao fogo – TRRF. Em face das dificuldades de cálculo e de sua variabilidade com o cenário de incêndio, o TRRF é avaliado subjetivamente, em função do risco e das conseqüências do incêndio. É definido por consenso da sociedade e estabelecido em normas ou códigos. ) TRRF padroniza a ação térmica a ser utilizada no dimensionamento das estruturas em incêndio. O TRRF não deve ser confundido com tempo de desocupação ou tempo de duração do incêndio. A NBR 14432:2000 apresenta uma tabela de tempos requeridos de resistência ao fogo (TRRF) dos elementos construtivos das edificações, mas permite também a utilização de outros métodos para determiná-lo, por exemplo: método do tempo equivalente e métodos de análise de risco, desde que adequados à realidade nacional. Permite também a utilização de métodos avançados (incêndio natural) para avaliar a ação térmica nas estruturas. Um resumo da citada tabela é apresentado na Tabela 1.
Tendo em vista a pequena probabilidade de
acidentes em edifícios de fácil desocupação, algumas edificações são
dispensadas de verificação estrutural. Um resumo das recomendações da Norma
Brasileira é apresentado na Tabela 2.
Tabela 1 - TRRF (min) para alguns tipos de edificações (NBR 14432:2000).
|
Ocupação/Uso |
Altura da Edificação |
||||
|
h
£ 6m |
6m
< h £ 12m |
12m
< h £ 23m |
23m
< h £ 30m |
h
> 30m |
|
|
Residência |
30 |
30 |
60 |
90 |
120 |
|
Hotel
|
30 |
60 |
60 |
90 |
120 |
|
Supermercado |
60 |
60 |
60 |
90 |
120 |
|
Escritório |
30 |
60 |
60 |
90 |
120 |
|
Shopping |
60 |
60 |
60 |
90 |
120 |
|
Escola |
30 |
30 |
60 |
90 |
120 |
|
Hospital |
30 |
60 |
60 |
90 |
120 |
Tabela 2 – Tabela de isenções de verificação de segurança estrutural (NBR 14432:2000)
|
Área (1) |
Uso |
Carga de incêndio (6) específica |
Altura (7) |
Meios de proteção contra incêndio (9) |
|
£ 750m2 |
Qualquer |
Qualquer |
Qualquer |
|
|
£ 1500m2 |
Qualquer |
£ 1000 MJ/m2 |
£ 2 pavimentos |
|
|
Qualquer |
Centros esport., term. pass. (2) |
Qualquer |
£ 23m |
|
|
Qualquer |
Garagens abertas(3) |
Qualquer |
£ 30m |
|
|
Qualquer |
Depósitos (4) |
Baixa |
£30m |
|
|
Qualquer |
Qualquer |
£ 500 MJ/m2 |
Térrea (8) |
|
|
Qualquer |
Industrial (5) |
£ 1200 MJ/m2 |
Térrea (8) |
|
|
Qualquer |
Depósitos (5) |
£ 2000 MJ/m2 |
Térrea (8) |
|
|
Qualquer |
Qualquer |
Qualquer |
Térrea (8) |
Chuveiros automáticos (9) |
|
£ 5000m2 |
Qualquer |
Qualquer |
Térrea (8) |
Duas ou mais fachadas de aproximação (10) |
(1) área total da
edificação, observadas as recomendações constantes das normas brasileiras em vigor
e em regulamentos de órgãos públicos.
(2) centros esportivos, terminais de
passageiros, construções provisórias, etc., exceto as regiões de ocupação
distinta. Para 23m<h£30m e h>30m o TRRF deverá ser de 30min e 60min
respectivamente e para subsolo com h£10m e h>10m, o
TRRF deverá ser de 60min e 90min, respectivamente.
(3) garagens abertas lateralmente, com
estrutura em concreto armado ou protendido ou em aço que atenda a determinadas condições
construtivas descritas na Norma. O grau mínimo de abertura lateral é definido
na Norma.
(4) depósitos sem
risco de incêndio expressivo, com estrutura em concreto armado ou protendido ou
em aço.
(5) observados os critérios de
compartimentação constantes das normas brasileiras em vigor e de regulamentos
de órgãos públicos.
(6) conforme tabela fornecida na Norma.
(7) altura da edificação é a distância
compreendida entre o ponto que caracteriza a saída situada no nível de descarga
do prédio e o piso do último pavimento.
(8) edificação
térrea é a edificação de apenas um pavimento, podendo possuir um piso elevado
com área inferior ou igual à terça parte da área do piso situado no nível de
descarga.
(9) conforme Normas Brasileiras em
vigor.
(10) fachadas de aproximação com características
definidas na Norma.
(11) As isenções não se aplicam às edificações cujos
ocupantes tenham restrição de mobilidade, como no caso de hospitais, asilos e
penitenciárias; à cobertura da edificação com função de piso, mesmo que seja
para saída de emergência; à estrutura da edificação que, a critério do
responsável técnico p elo projeto estrutural, for essencial à estabilidade de
um elemento de compartimentação
As condições de segurança de uma
estrutura podem ser expressas por desigualdades do tipo:
F(Sd,
Rd) £ 0
Quando a segurança puder ser verificada
isoladamente em relação a cada um dos esforços atuantes, as condições de segurança
podem ser expressas de forma simplificada: Sd £
Rd
Em
situação de incêndio essa expressão toma a seguinte forma: Sd,fi £
Rd,fi,q
Onde:
Sd,fi
é o valor de cálculo do esforço solicitante em situação de incêndio
Rd,fi,q
é o valor de cálculo do esforço resistente em situação de incêndio
A ação térmica tem duração extremamente curta e baixa probabilidade de ocorrer
durante a vida útil da construção, caracterizando, portanto, uma ação
excepcional. Sd,fi é determinado conforme as recomendações da NBR 8681:2003
a partir da expressão:
Onde:
gg é o valor do coeficiente de ponderação para as ações
permanentes (vale 1,2 para ação permanente desfavorável)
gq é o valor do coeficiente de ponderação para as ações
variáveis (vale 1,0)
y2 é o fator de combinação utilizado para a
determinação dos valores reduzidos das ações variáveis nas combinações últimas
(vale: 0 (zero) para pressão dinâmica do vento, 0,21 para cargas acidentais em
locais em que não há predominância de pesos de equipamentos que permanecem
fixos por longos períodos de tempo, nem de elevadas concentrações de pessoas
(edifícios residenciais), 0,28 para cargas acidentais em locais em que há
predominância de pesos de equipamentos que permanecem fixos por longos períodos
de tempo, ou de elevada concentração de pessoas (edifícios comerciais), 0,42
para cargas acidentais em bibliotecas, arquivos, oficinas e garagens
As eventuais solicitações provenientes de
restrições às deformações térmicas, geralmente, são desprezadas quando se utiliza
o modelo do incêndio-padrão.
Rd,fi,q
é determinado por expressões similares àquelas utilizadas no cálculo à
temperatura ambiente, incluindo fatores de redução da resistência, ky,q,
e do módulo de elasticidade, kE,q, fornecidos
na Tabela 3. Algumas dessas expressões são modificadas por coeficientes de
ajuste, com base experimental.
Tabela 3 - Fatores de
redução
|
qa (° C) |
ky,q |
kE,q |
|
20 |
1,000 |
1,000 |
|
100 |
1,000 |
1,000 |
|
200 |
1,000 |
0,900 |
|
300 |
1,000 |
0,800 |
|
400 |
1,000 |
0,700 |
|
500 |
0,780 |
0,600 |
|
600 |
0,470 |
0,310 |
|
700 |
0,230 |
0,130 |
|
800 |
0,110 |
0,090 |
|
900 |
0,060 |
0,0675 |
|
1000 |
0,040 |
0,0450 |
|
1100 |
0,020 |
0,0225 |
|
1200 |
0,000 |
0,000 |
Os materiais utilizados nas estruturas sofrem alterações na microestrutura
em decorrência de elevação de temperatura, modificando suas propriedades
físicas e mecânicas. Nos metais, apenas as propriedades mecânicas são reduzidas
em incêndio. Na madeira e no concreto, além das propriedades mecânicas, a área
resistente também pode ser reduzida, devido à carbonização e a lascamentos,
respectivamente.
Apesar da distribuição não-uniforme de temperatura nos elementos de concreto, devido às baixas condutividade térmica e esbeltez, é usual adotar o modelo do incêndio-padrão para medir a “resistência ao fogo” em unidade de “tempo” (TRRF). Assim, todos os elementos estruturais devem respeitar o TRRF normatizado. O TRRF pode também ser determinado pelo método do tempo equivalente (MTE), detalhado na Instrução Técnica, IT, n°8 do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo. O MTE permite reduzir o TRRF normatizado, se houver condições favoráveis de segurança a incêndio, procedentes da proteção ativa, baixa carga de incêndio, etc.
A verificação da estrutura pode ser realizada por meio de três métodos: tabular, simplificado e geral. Os dois últimos não são totalmente detalhados na NBR 15200:2004, permitindo ao projetista a escolha de métodos citados na literatura técnica internacional. O método tabular é o mais simples de ser empregado, mas nem sempre o mais econômico.
A temperatura diminui nas regiões
próximas ao centro da seção transversal. Quanto
maior a seção transversal, tanto maior será o núcleo frio. Quanto mais afastada estiver a armadura da
face exposta ao calor, menor será sua temperatura (Fig. 5). É falsa a idéia de que o cobrimento da armadura é
fundamental para protegê-la do calor, uma vez que o concreto não é um
isolante ideal. A temperatura da armadura
depende da sua posição (indiretamente do cobrimento) e das dimensões da seção
transversal do elemento de concreto (Fig. 6).
|
|
|
|
Figura 5 - Distribuição de temperatura na seção de concreto submetida ao calor em todas as faces. |
Figura 6 - Temperatura das armaduras, de área e centro geométrico iguais, em lajes de espessuras diferentes, submetidas à mesma ação térmica. |
As tabelas 4, 5 e 6 são exemplos do método tabular apresentado na Norma. É permitida a inclusão de revestimentos não-combustíveis na determinação das dimensões mínimas em função do TRRF.
Tabela 4 - Dimensões mínimas para lajes apoiadas em vigas
|
TRRF (min) |
h (mm)‡ |
a (mm) |
||
|
Armada em duas direções |
Armada numa direção |
|||
|
30 |
60 |
10 |
10 |
10 |
|
60 |
80 |
10 |
15 |
20 |
|
90 |
100 |
15 |
20 |
30 |
|
120 |
120 |
20 |
25 |
40 |
Tabela 5 - Dimensões mínimas para vigas contínuas
|
TRRF (min) |
Combinações de bmin e “a” |
bwmin (mm) |
|||||
|
1 |
2 |
3 |
|||||
|
bmín (mm) |
a (mm) |
bmín (mm) |
a (mm) |
bmín (mm) |
a (mm) |
||
|
30 |
80 |
15 |
160 |
12 |
190 |
12 |
80 |
|
60 |
120 |
25 |
190 |
12 |
300 |
12 |
100 |
|
90 |
140 |
35 |
250 |
25 |
400 |
25 |
100 |
|
120 |
200 |
45 |
300 |
35 |
450 |
35 |
120 |
Tabela 6 - Dimensões mínimas para pilares
|
TRRF (min) |
Combinações de bmin e “a” |
||||||||
|
Mais de uma face exposta |
Uma face exposta |
||||||||
|
mfi
= 0,2 |
mfi
= 0,5 |
mfi
= 0,7 |
mfi
= 0,7 |
||||||
|
1 |
2 |
3 |
4 |
||||||
|
bmín (mm) |
a (mm) |
bmín (mm) |
a (mm) |
bmín (mm) |
a (mm) |
bmín (mm) |
a (mm) |
||
|
30 |
190 |
25 |
190 |
25 |
190 |
30 |
140 |
25 |
|
|
60 |
190 |
25 |
190 |
35 |
250 |
45 |
140 |
25 |
|
|
90 |
190 |
30 |
300 |
45 |
450 |
40 |
155 |
25 |
|
|
120 |
250 |
40 |
350 |
45 |
450 |
50 |
175 |
35 |
|
O fator “mfi” é a razão entre os valores de cálculo da normal solicitante em situação de incêndio (NSd,fi) e da normal resistente em situação normal de uso (NRd).
|
|
A
NBR 15200 permite, salvo cálculo mais preciso, considerar mfi = 0,70.